Wu-Tang Clan gravou um disco proibido de lançar até 2103

Documentário na Netflix e a primeira audição de Method Man reacendem a história de “Once Upon a Time in Shaolin”, o álbum de cópia única que passou por um cofre no Marrocos, um executivo preso e um coletivo de arte digital.

Por Augusto L. · · 5 min de leitura

RZA, de boné preto e óculos, durante painel na San Diego Comic-Con, em 2018
Foto: Gage Skidmore

Method Man, um dos MCs do Wu-Tang Clan, ouviu “Once Upon a Time in Shaolin” pela primeira vez em um episódio do podcast “Pablo Torre Finds Out” publicado em 16 de outubro de 2026, o mesmo dia em que a Netflix lançou o documentário “The Disciple: A Wu-Tang Fable”. O disco, gravado em segredo e limitado a uma única cópia física, não pode ser lançado comercialmente até 2103, pelo contrato assinado na venda.

No episódio, Method Man elogiou a produção, mas disse que em trechos o som parece imitação do estilo de RZA. Resumiu assim:

“All in all, I do not hate this album.”

Em tradução livre, algo como “no geral, eu não odeio este álbum”. Depois, reconheceu o trabalho do produtor Cilvaringz e chamou o disco de “valid piece of art” (uma peça de arte válida, em tradução livre).

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A gravação secreta de “Once Upon a Time in Shaolin”

RZA e o produtor holandês de origem marroquina Tarik “Cilvaringz” Azzougarh gravaram o disco em segredo ao longo de cerca de seis anos. O álbum ficou pronto em 2013, tem 31 faixas e mais de duas horas de duração. Entre as participações estão Cher e Redman, segundo o site oficial do projeto. O motivo declarado por RZA era tratar a música como obra de arte única, em protesto contra a desvalorização da música na era digital, conforme ele disse à Forbes em 2014.

A cópia foi guardada em uma caixa entalhada à mão em prata de níquel (alpaca) pelo artista Yahya, em três meses de trabalho, segundo a Forbes. O conjunto trazia ainda um livro de 174 páginas encadernado em couro, um certificado de autenticidade e um par de caixas de som avaliadas em US$ 55 mil, segundo o site oficial do projeto. Em 2014, a caixa ficou guardada num cofre nos arredores de Marrakech, no Marrocos, e depois foi levada por segurança para o hotel Royal Mansour, segundo a Forbes. O Guinness World Records registrou o título de álbum mais valioso em 2014, antes de qualquer transação.

Em 2 de março de 2015, RZA e Cilvaringz apresentaram um trecho de 13 minutos no MoMA PS1, em Nova York. Em maio daquele ano, segundo RZA à Bloomberg, a venda foi acertada. O comprador foi revelado pela Bloomberg Businessweek em 9 de dezembro de 2015: Martin Shkreli, que pagou US$ 2 milhões. O preço ficou em sigilo pelo contrato de venda.

De Martin Shkreli à PleasrDAO

Shkreli ficou conhecido como “Pharma Bro” depois de aumentar o preço do remédio Daraprim em mais de 4.000%, segundo a FTC, órgão de defesa da concorrência dos EUA. Quando foi revelado como comprador, disse à Bloomberg que ainda não tinha ouvido o disco e que ia guardá-lo “para um dia chuvoso” (tradução livre). Em agosto de 2017, foi condenado por fraude contra investidores. Em março de 2018, recebeu pena de sete anos de prisão, conforme o Departamento de Justiça dos EUA. Semanas depois da condenação, tentou leiloar o álbum pela internet. A Justiça mandou confiscar cerca de US$ 7,4 milhões em bens, incluindo o disco.

Em 27 de julho de 2021, o governo dos EUA anunciou a venda do álbum, sem revelar comprador nem preço. Documentos obtidos pela Bloomberg em 2025 por meio da lei de acesso à informação mostraram que o governo recebeu US$ 2.238.482,30 de uma empresa de Hong Kong chamada WTC Endeavours, conforme reportagem da Complex.

A PleasrDAO, coletivo de arte digital e cripto, se revelou dona do disco em outubro de 2021 e afirma ter pago cerca de US$ 4 milhões. Em 2024, segundo o coletivo, pagou mais cerca de US$ 750 mil pelos direitos autorais. De 15 a 24 de junho de 2024, o disco foi emprestado a um museu pela primeira vez desde a venda original, o MONA, em Hobart, na Tasmânia (Austrália). O público esvaziou os bolsos e passou por detector de metais para ouvir um mix de cerca de 30 minutos, segundo a ABC australiana.

Shkreli saiu da prisão em 2022 e, em transmissões ao vivo, tocou trechos e disse ter guardado cópias do álbum. Em 10 de junho de 2024, a PleasrDAO o processou na Justiça Federal do Brooklyn (caso 1:24-cv-04126, juíza Pamela K. Chen). Em agosto de 2024, uma liminar o obrigou a entregar todas as cópias aos próprios advogados. Em janeiro de 2025, ele apresentou à Justiça uma lista com nove nomes de pessoas que teriam recebido o disco; um deles negou. Para a juíza, as alegações do próprio Shkreli na internet, de que tinha espalhado o disco para milhares de pessoas, pareciam “grosseiramente exageradas” (tradução livre).

Em 25 de setembro de 2025, a juíza manteve os pedidos de violação de segredo comercial e de devolução do bem, e derrubou outros três. Ela chamou a aplicação de segredo comercial a um disco de “território inexplorado” (tradução livre). Em 2026, Shkreli contra-atacou, pedindo para ser declarado dono de 50% dos direitos autorais, e em 17 de fevereiro de 2026 processou RZA e Cilvaringz, cobrando que paguem sua defesa e uma eventual condenação, com base no contrato de 2015. Os pedidos da PleasrDAO para derrubar essas ações estão em análise.

O documentário “The Disciple: A Wu-Tang Fable”, dirigido por Joanna Natasegara e com RZA como produtor executivo, estreou no Festival de Sundance em 22 de janeiro de 2026 e está na Netflix desde 16 de outubro de 2026. Method Man, que em 2015 tinha atacado o projeto na revista XXL por causa da regra dos 88 anos e criticado Cilvaringz, mudou o tom depois de ouvir as faixas. Disse que retirava o que tinha falado e que Cilvaringz fez um “excellent job”. Até onde apuramos, nenhum lançamento comercial do álbum foi anunciado.

Fontes

  1. consequence.net
  2. netflix.com
  3. storage.courtlistener.com
  4. abc.net.au
  5. justice.gov
  6. complex.com
  7. letterboxd.com

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Augusto L.

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