Method Man, um dos MCs do Wu-Tang Clan, ouviu “Once Upon a Time in Shaolin” pela primeira vez em um episódio do podcast “Pablo Torre Finds Out” publicado em 16 de outubro de 2026, o mesmo dia em que a Netflix lançou o documentário “The Disciple: A Wu-Tang Fable”. O disco, gravado em segredo e limitado a uma única cópia física, não pode ser lançado comercialmente até 2103, pelo contrato assinado na venda.
No episódio, Method Man elogiou a produção, mas disse que em trechos o som parece imitação do estilo de RZA. Resumiu assim:
“All in all, I do not hate this album.”
Em tradução livre, algo como “no geral, eu não odeio este álbum”. Depois, reconheceu o trabalho do produtor Cilvaringz e chamou o disco de “valid piece of art” (uma peça de arte válida, em tradução livre).
Assistir no YouTubeA gravação secreta de “Once Upon a Time in Shaolin”
RZA e o produtor holandês de origem marroquina Tarik “Cilvaringz” Azzougarh gravaram o disco em segredo ao longo de cerca de seis anos. O álbum ficou pronto em 2013, tem 31 faixas e mais de duas horas de duração. Entre as participações estão Cher e Redman, segundo o site oficial do projeto. O motivo declarado por RZA era tratar a música como obra de arte única, em protesto contra a desvalorização da música na era digital, conforme ele disse à Forbes em 2014.
A cópia foi guardada em uma caixa entalhada à mão em prata de níquel (alpaca) pelo artista Yahya, em três meses de trabalho, segundo a Forbes. O conjunto trazia ainda um livro de 174 páginas encadernado em couro, um certificado de autenticidade e um par de caixas de som avaliadas em US$ 55 mil, segundo o site oficial do projeto. Em 2014, a caixa ficou guardada num cofre nos arredores de Marrakech, no Marrocos, e depois foi levada por segurança para o hotel Royal Mansour, segundo a Forbes. O Guinness World Records registrou o título de álbum mais valioso em 2014, antes de qualquer transação.
Em 2 de março de 2015, RZA e Cilvaringz apresentaram um trecho de 13 minutos no MoMA PS1, em Nova York. Em maio daquele ano, segundo RZA à Bloomberg, a venda foi acertada. O comprador foi revelado pela Bloomberg Businessweek em 9 de dezembro de 2015: Martin Shkreli, que pagou US$ 2 milhões. O preço ficou em sigilo pelo contrato de venda.
De Martin Shkreli à PleasrDAO
Shkreli ficou conhecido como “Pharma Bro” depois de aumentar o preço do remédio Daraprim em mais de 4.000%, segundo a FTC, órgão de defesa da concorrência dos EUA. Quando foi revelado como comprador, disse à Bloomberg que ainda não tinha ouvido o disco e que ia guardá-lo “para um dia chuvoso” (tradução livre). Em agosto de 2017, foi condenado por fraude contra investidores. Em março de 2018, recebeu pena de sete anos de prisão, conforme o Departamento de Justiça dos EUA. Semanas depois da condenação, tentou leiloar o álbum pela internet. A Justiça mandou confiscar cerca de US$ 7,4 milhões em bens, incluindo o disco.
Em 27 de julho de 2021, o governo dos EUA anunciou a venda do álbum, sem revelar comprador nem preço. Documentos obtidos pela Bloomberg em 2025 por meio da lei de acesso à informação mostraram que o governo recebeu US$ 2.238.482,30 de uma empresa de Hong Kong chamada WTC Endeavours, conforme reportagem da Complex.
A PleasrDAO, coletivo de arte digital e cripto, se revelou dona do disco em outubro de 2021 e afirma ter pago cerca de US$ 4 milhões. Em 2024, segundo o coletivo, pagou mais cerca de US$ 750 mil pelos direitos autorais. De 15 a 24 de junho de 2024, o disco foi emprestado a um museu pela primeira vez desde a venda original, o MONA, em Hobart, na Tasmânia (Austrália). O público esvaziou os bolsos e passou por detector de metais para ouvir um mix de cerca de 30 minutos, segundo a ABC australiana.
Shkreli saiu da prisão em 2022 e, em transmissões ao vivo, tocou trechos e disse ter guardado cópias do álbum. Em 10 de junho de 2024, a PleasrDAO o processou na Justiça Federal do Brooklyn (caso 1:24-cv-04126, juíza Pamela K. Chen). Em agosto de 2024, uma liminar o obrigou a entregar todas as cópias aos próprios advogados. Em janeiro de 2025, ele apresentou à Justiça uma lista com nove nomes de pessoas que teriam recebido o disco; um deles negou. Para a juíza, as alegações do próprio Shkreli na internet, de que tinha espalhado o disco para milhares de pessoas, pareciam “grosseiramente exageradas” (tradução livre).
Em 25 de setembro de 2025, a juíza manteve os pedidos de violação de segredo comercial e de devolução do bem, e derrubou outros três. Ela chamou a aplicação de segredo comercial a um disco de “território inexplorado” (tradução livre). Em 2026, Shkreli contra-atacou, pedindo para ser declarado dono de 50% dos direitos autorais, e em 17 de fevereiro de 2026 processou RZA e Cilvaringz, cobrando que paguem sua defesa e uma eventual condenação, com base no contrato de 2015. Os pedidos da PleasrDAO para derrubar essas ações estão em análise.
O documentário “The Disciple: A Wu-Tang Fable”, dirigido por Joanna Natasegara e com RZA como produtor executivo, estreou no Festival de Sundance em 22 de janeiro de 2026 e está na Netflix desde 16 de outubro de 2026. Method Man, que em 2015 tinha atacado o projeto na revista XXL por causa da regra dos 88 anos e criticado Cilvaringz, mudou o tom depois de ouvir as faixas. Disse que retirava o que tinha falado e que Cilvaringz fez um “excellent job”. Até onde apuramos, nenhum lançamento comercial do álbum foi anunciado.






